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20090121

Justiça a sério?

O paradoxo «judicial» criado pela administração Bush (uff!) de Guantanamo (que irónica ideia, irem colocar aquela ignominiosa chafurdice na ilha da revolução cubana!) pode ter os dias contados. Pode, porque não é certo que o venha a ter.

O que aconteceu, parece ter sido uma ordem transmitida pela nova administração, através Procurador-Geral (que é também ministro da Justiça), no sentido, apenas, da suspensão da tramitação dos processos concretos. Nada mais. Os juízes podem não acatar os pedidos dos procuradores.
Não houve - não podia ter havido - uma medida legislativa no sentido de serem extintas as instâncias judiciais militares do complexo de Guantanamo, criadas no âmbito do Patriotic Act, como forma de lutar contra o «terrorismo» e transferida a competência para os apreciar, para as instâncias judiciais comuns.
Temos, por isso, que aguardar, embora seja um sinal inequivocamente encorajador, no sentido de eliminar um dos actuais motivos de vergonha dos EUA.
Será, também, uma forma de esvaziar as recriminações do mundo, perante um sistema iníquo, criado pela democracia mais «forte» e mais «exemplar».

Tenhamos esperança. A expectativa, se calhar, não cabe nela.

20090117

Inversão de sentido ?

Um filme - um acontecimento - um presidente.

Nestes dias que passam, pude ver um acontecimento - a amaragem de um avião com 155 passageiros no rio Hudson -, um filme - «O estranho caso de Benjamin Button» (recriação de uma novela fantástica de Scott Fitzgerald) -, e espero presenciar a tomada de posse de um presidente.
Estes três factos têm em comum a circunstância de terem acontecido (os dois primeiros) e vir a acontecer (o último) nos EUA.

Todos eles versam sobre uma certa ideia, uma certa vontade de "inversão de sentido"; o primeiro, tem como contra-ponto, o 11 de Setembro: também um avião, acabado de descolar se precipitou, não sobre edifícios (e matando gente), mas sobre o rio Hudson (ninguém tendo perecido); o segundo, é um filme sobre a inversão de sentido do Tempo (e de vida) de uma pessoa, Benjamin Button, personificada na personagem e na ideia do relógio da estação, cujos ponteiros andavam em sentido retrógrado; finalmente, o terceiro, será um momento histórico e de grande esperança para os EUA e para o Mundo, invertendo (?) uma tendência errática, belicista e inconsequente da última administração americana (de má memória).

Três acontecimentos que marcam, talvez, a viragem ou a inversão de sentido da História e dos anseios das pessoas, num tempo em que a única certeza parece ser (além da morte) a incerteza.
Três acontecimentos de (alguma) esperança?

20081102

Obama e a «Esperança»

Confesso-me admirador de Barack Obama.
Votaria nele, se pudesse ser eleitor, como milhões de outros habitantes do Planeta, por considerar que a figura inspira, mais do que um conteúdo doutrinal consistente - porventura dispensável neste momento histórico -, um aspecto simbólico, em tempo de "crises" (não há uma crise, há muitas crises, que se agudizaram em simultâneo).
Obama pode parecer um símbolo do cruzamento multicultural e um resultado da própria globalização contemporânea (filho de emigrante africano e de uma "native american" caucasiana).
Esse é um símbolo que resume magnificamente as contradições actuais do povo americano, da interpenetração de valores, de credos e de culturas. Mas, também, do Mundo, onde essas contradições são até talvez mais evidentes, noutras latitudes.
É isso que dá força a uma figura que Colin Powell definiu de forma não traduzível. «transformational».
Mais do que a um programa acabado, adere-se, enfim, a um projecto cuja marca é a de se ir adequando às vicissitudes e problemas que irão surgir.

E, nisso, mais uma vez, os EUA foram inovadores, ao permitir a apresentação de uma tal proposta de governance, ao contrário das tradicionais linhas partidárias.

Não podemos incorrer com excessiva credulidade nesta expectativa. Por um lado, é do interesse (nacional) dos EUA uma descompressão internacional (o Mundo precisa dos EUA, mas de uns EUA que possam ajudar o Mundo).
E esta é a principal força mobilizadora, que daria a vantagem esmagadora a Obama numa eleição planetária.

Mas os EUA são algo cujo funcionamento não tinha as mesmas determinantes que o resto do Mundo.
Pode ser que estejam a mudar. E que isso viabilize um novo discurso, novas políticas e novas práticas. Num Mundo mais igual e sem medo.
Em que os EUA possam liderar, de novo.

Faço votos para que Obama ganhe. E que possa cumprir metade do que se espera dele. Já era muito bom.