20070728

Wazimbo - «Nwahulwana»

Música de Moçambique para o Mundo.

20070727

Disse «Simplex» inconstitucional, Prof. Canotilho?

O Público noticia hoje que o constitucionalista Gomes Canotilho emitiu um parecer à O. dos Notários, segundo o qual, os programas «Empresa na Hora» e «Casa Pronta» são inconstitucionais. A acreditar na notícia, até aqui, tudo bem: os constitucionalistas não servem para dizer que as leis são constitucionais.
M.ª Manuel Marques - «ideóloga» do Simplex (no qual aquelas medidas se integram) e mulher do seu companheiro constitucionalista Vital Moreira - é que deve estar, a esta hora, a franzir o sobrolho. Não é caso para menos...
Mas, o que é isso interessa? O premiozito de «excelência»(?) já cá canta.

20070726

Pelourinhos contemporâneos

Subscrevo por baixo esta proverbialmente antológica observação do Francisco José Viegas, relativamente à onda populista e justicialista que tomou conta dos media e de parte da opinião publicada.

20070724

É impressão minha, de certeza

É impressão minha, ou há neste folhetim um colossal e patético abuso de poder(zinhos)?

Khadafi, as enfermeiras búlgaras, o médico palestiniano e o «gesto humanitário»

Terminou o drama de cinco enfermeiras búlgaras e de um médico palestiniano, presos há oito anos na Líbia, acusados de ter infectado voluntariamente com HIV diversas crianças e, por isso, condenados à morte.
A libertação, cujos detalhes se podem ver aqui, ocorreu depois de complexas negociações encetadas pela Comissão Europeia, que teve de abrir os cordões à bolsa com um milhão de Euros para as famílias de cada vítima, contra a declaração destas de que não havia oposição à comutação da pena (de morte, entretanto convolada para prisão perpétua) apesar de os «condenados» sempre terem protestado inocência e alegado tortura para confessar.
Depois disto, Sarkozy e Durão Barroso (sempre esse formidável filantropo) ainda vêm agradecer o «gesto humanitário» da Líbia.
É caso para perguntar: quem vai indemnizar os «condenados»?

20070722

Como se saboreasses a fome

Como se saboreasses a fome
como se visses o invisível
como se tacteasses o ar
como se ouvisses o silêncio


seriam improváveis
os teus trabalhos
se fossem esses
ou os que, outrora,
num registo reminiscente
procuraste desenvolver
pelo inverso mergulho
todo dirigido às constelações.

A «natalidade» depois do aborto?

Em Portugal, como em Espanha, os iluminados governos "socialistas", depois de terem «despenalizado» o aborto, andam numa furiosa política natalista.
Não sei se haverá algum resultado visível dessas políticas materialistas de subsídios, sem as complementar com um efectivo apoio social e com medidas de enquadramento consequente da maternidade/paternidade.
O que sei é que se devia ter começado por aqui, em vez de se ter começado a dar o sinal contrário, com a liberalização do aborto.

20070721

E ao 365.º post, a mudança

Não foi sequer pensado. Foi mesmo uma coincidência.
Este é o 365.º post dest blog.
Era altura de o alterar. Como se diz, de fazer um lifting, um reestyling, seja o que for.
Mudar é sempre bom. Para já, a imagem. Os conteúdos, talvez depois.
Opiniões serão bem vindas.

Aproveita-se para indicar este outro sítio onde também estarei, doravante.

20070720

As idades das pedras

Existe uma idade adulta
das pedras?

elas que sempre estiveram ali
martirizadas, explodidas, aparelhadas
numa pedreira ou num muro

Existiu uma infância das pedras?

Das pedras
que pavimentam
as ruas e os sonhos?

Das pedras que guiam
a nossa memória

Existirá uma velhice
das pedras
que perdem qualidades
e se esboroam
por detrás da cal?

Que idade têm as pedras?

Buena Vista Social Club - «Chan Chan»

Música para o Verão

Saramago e a Ibéria

A minha filha mais velha chamava-lhe «senhor amargo», quando começou a ouvir falar do Nobel português, talvez por não entender bem o apelido (mas que era adequado, era).
Saramago - já não é de hoje - defende a Ibéria e o iberismo, acreditando que um destino português na «grande Espanha» só teria vantagens. A ideia é repulsiva para um certo nacional-situacionismo, mas também entendo que em tempos de queda de tabus, nada deve ser sagrado. É de saudar o debate.
Saramago pode ter muitos defeitos: ser arrogante e vaidoso, presunçoso, estalinista, iberista, etc.; ninguém o pode acusar de hipócrita. A frontalidade e a sinceridade são apanágio dele, como de muitos outros. E não é isso que o fará redimir de tudo o mais.
No D.N. de 18/7/2007, F. Venâncio chamou-lhe «traidor» com todas as letras. E em castelhano.
Na carta aberta que lhe escreveu, revela que, tendo sido convidado para uma conferência na Galiza lhe terão pedido que falasse em português. Saramago não falou em português, não falou em galego, mas sim em castelhano.
Eu também acho que isso foi uma dupla afronta.
É que Saramago não ganhou o Nobel a escrever em castelhano.

20070719

Crime, dizem eles.

Vai por aí um burburinho acerca de se saber se o aborto praticado fora de «estabelecimento hospitalar autorizado» é crime ou não.
Como habitualmente, há opiniões «técnicas» para todos os gostos.
Há quem tenha dito que o facto de o aborto (continuar a) ser praticado num vão de escada «não autorizado» só configura um «mero ilícito administrativo», por falta de licenciamento para a finalidade (!!!).
Osvaldo Castro, essa inenarrável personagem (mas responsável por uma Comissão parlamentar !!), disse qualquer coisa como a questão ser de ordem regulamentar e «já não ser nada com a A.R.». Como se a definição do conteúdo de tipicidade e ilicitude criminal pudesse alguma ser relegada para o domínio regulamentar...
Parece que a Direcção-Geral de Saúde emitiu um parecer a defender o entendimento de que nessas situações há crime.
Eu pensava que a questão tinha ficado resolvida com a resposta no referendo.

20070717

Homens que são como lugares mal situados IV

[...]
Não levantemos os homens que se sentam à saída
Porque se movem em seus carreiros interiores
Equilibram com dificuldade uma ideia
Qualquer coisa muito nítida, semelhante
A uma folha vazia
E põem ninhos nas árvores para se libertarem
Da gaiola terrível, invisível muitas vezes

De tão dura
Não nos aproximemos dos homens que põem as mãos nas grades
Que encostam a cabeça aos ferros
Sem outras mãos onde agarrar as mãos
Sem outra cabeça onde encostar o coração
Não lhes toquemos senão com os materiais secretos
Do amor.

Não lhes peçamos para entrar
Porque a sua força é para fora e a sua espera
É a fé inabalável no mistério que inclina
Os homens por dentro
Não os levantemos
Nem nos sentemos ao lado deles.

Sentemo-nos
No lado oposto, onde eles podem vir para erguer-nos
A qualquer instante

[...]


Daniel Faria, Excerto do Livro de Homens que são como lugares mal situados, Fundação Manuel Leão, Porto, 1998

20070716

Máximas

Não louves um homem antes de o teres posto à prova e não desacredites nenhum senão depois de o teres experimentado.

Sabedoria árabe, Pergaminho.

E. Delacroix - Carnet de voyage ao Maroc


20070715

Homens que são como lugares mal situados III

[...]


Homens que trabalham sob a lâmpada
Da morte
Que escavam nessa luz para ver quem ilumina
A fonte dos seus dias
Homens muito dobrados pelo pensamento
Que vêm devagar como quem corre
As persianas
Para ver no escuro a primeira nascente

Homens que escavam dia após dia o pensamento
Que trabalham na sombra da copa cerebral
Que podam a pedra da loucura quando esmagam as pupilas
Homens todos brancos que abrem a cabeça
À procura dessa pedra definida

Homens de cabeça aberta exposta ao pensamento
Livre. Que vêm devagar abrir
Um lugar onde amanheça.
Homens que se sentam para ver uma manhã
Que escavam um lugar
Para a saída.


[...]

Daniel Faria, Homens que são como lugares mal situados, Ed. Fund. Manuel Leão, Porto, 1998.

20070714

Pena de água

Pena de água, para quem não sabe, é um direito tradicional sobre águas comuns. Que se extingue pelo não uso.

A pena de água é o direito que têm - ainda hoje - os vizinhos da freguesia de S. Victor, em Braga, de aproveitamento (comum) da água do complexo hidráulico-arquitectónico oitocentista das Sete Fontes.

Este conjunto monumental, aliás justificadamente classificado como Monumento Nacional, está presentemente ameaçado pelo projecto de uma variante com 50 metros de largura (de acesso ao novo Hospital), que, apesar de planeada em viaduto, terá impacto irreversível para todo o conjunto patrimonial, pois irá afectar a captação de água e pôr em perigo a estabilidade das construções e aquedutos.

E há uma, pelo menos uma das arcas de água que se sabe já que será inapelavelmente destruída. Chama-se a «mina dos órfãos», porque era a «mina» que abastecia a Obra do Colégio dos Órfãos (de S. Caetano), mandada edificar pelo seu benemérito Frei Caetano Brandão (arcebispo e senhor de Braga).
Vai ser destruída a «mina dos órfãos». É oficial.
Metáfora irónica de uma sociedade voltada para o imediato e indiferente à solidariedade.

Homens que são como lugares mal situados II

[...]


Homens que são como projectos de casas
Em suas varandas inclinadas para o mundo
Homens nas varandas voltadas para a velhice
Muito danificados pelas intempéries
Homens cheios de vasilhas esperando a chuva
Parados à espera
De um companheiro possível para o diálogo interior


Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber


Homens à chuva com as mãos nos olhos
Imaginando relâmpagos
Homens abrindo lume
Para enxugar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior



[...]



Daniel Faria, excerto do Livro Homens que são como lugares mal situados, Porto, 1998.

20070713

Sting feat. Cheb Mami - «Desert Rose»

Uma certa hora do dia

Convém atentar numa certa hora do dia
é a hora do fecho das lojas
a hora de saída das caixeiras
a hora em que elas lavam as vidraças dos estabelecimentos
que trabalham
e mostram - quero acreditar que inadvertidamente - o interior gostoso
dos decotes
e o fundo tatuado das costas

a chatice é que,
depois,
entram nos carros dos namorados.

20070712

luz meridional

Van Gogh tê-lo-ia feito melhor
por ser um flamengo deslumbrado
pela luz meridional

ou, talvez, Gaugin
que retratou tão bem
os corpos lassos
das moças gentias
com os mares do sul
em fundo

eu, seguramente que não.
Desconsegui aproximar-me
com a mínima honesta fidelidade
da transparência esmeralda
desse mar pouco oceano

coroado por palmares
sibilantes
que silenciam
o chilrear dos bandos.

20070711

O volteio táctil

Mencionas com rigor
a obliquidade zenital
da sombra das árvores
com a sua contingência

excepto no equinócio
da tua vida
que é quando consegues
ouvir o volteio táctil
dos morcegos

20070710

Homens que são como lugares mal situados I

Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem



Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas



Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas



Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar

[...]



Daniel Faria (1971-1999)


Excerto do livro Homens que são como lugares mal situados, Porto, 1998

20070709

Hai ku (série rios)

É duro
o dorso
do Douro

sete - "maravilhas" - sete

Não desperdiçei um segundo a acompanhar o evento das "7 maravilhas (?)". Constato, afinal, que três delas foram palco de morticínios sangrentos, nelas se inscrevendo páginas negras da Humanidade.
Hoje são "maravilhas". Quem diria?
Atestou-se, além do mais, a "irrelevância maravilhosa" do continente africano (como se a mesquita de Tombuctu, as pirâmides do Egipto ou o "grande Zimbabwe" não existissem).
Ainda bem que não perdi tempo nenhum com aquilo.

Hai ku (série rios)

Não há gangues
no Ganges

20070708

Exortação animal I

Já que os cardumes dissolvem
as matérias líquidas

e perderias
o objecto corpóreo
dessa liturgia

sugiro-te que exortes
uma rola
ou uma lagartixa

e dá-lhe um nome de pessoa
como a um filho.

Terá sido aí?

Terá sido em Auschwitz, no Gulag, Cambodja,
Ruanda, nos Balcãs ou no Iraq?
Infindáveis nomes
de infinitos sofrimentos.

Nalgum destes lugares ressurgiu o mal
como método infalível de extermínio demencial?

Terá sido aí ou dentro de nós?

John Cale e Lou Reed - «Style it takes»

20070707

Alerta vermelho em Marrocos

Marrocos em alerta hoje. É 7/7/2007.
Um bom dia para todos.

Penguin Cafe Orchestra - «Perpetuum Mobile»

Polícias e bandidos

É claro que há coisas mais preocupantes do que esta ou do que estoutra.
Convém assumir-se, definitivamente, que há polícias que só por acaso não são bandidos.

20070706

Benfica SAD (de olhos em bico?)

Manuel Pinho tinha razão.
A consequência mais visível do incentivo feito na China pelo ministro da Economia, está à vista.
Lá, estimulou os empresários chineses a investir no País, por causa dos salários «competitivos» praticados em Portugal.
Eles, agora, não se fizeram rogados...
Parece que apareceu alguém para complicar os planos do Joe.

20070704

Let´s twin(s) again


As lógicas da simetria inspiram as práticas políticas actuais.
Há, hoje, um curioso movimento pendular em que as tendências do «fim da história», do «pensamento único» não se fazem mais em termos concorrenciais externos, mas em termos de concorrência osmótica.
A dita «esquerda» esvazia o espaço da «direita», ousando aplicar medidas programáticas desta, mas cujos custos sociais a levou a adiá-las ou a suavizá-las.
A chamada «direita» replica o modelo, esvaziando o espaço da «esquerda», implicando personalidades d(e) movimentos sociais e políticos das áreas da solidariedade e promoção da cidadania.
É isso que sucedeu em Inglaterra, em Espanha, em Portugal e, ultimamente em França (Sarkozy, que há pouco mais de um ano chamava «racaille» à juventude da banlieue parisiense, propõe-se hoje um inaudito programa de integração social desses jovens).
Com matrizes originárias diversas, os poderes político-governativos tendem hoje a um unanimismo de fusão meta-ideológica, que pode deixar os eleitores confusos.
É um cenário em que a imagem é decisivamente essencial. Logo, um contexto em que os media, motivados por interesses múltiplos, são um factor privilegiado de promoção dos protagonistas.
Os valores e as ideologias estão, definitivamente, não nas gavetas, mas nos anais da História.

A morte não é eterna

Há momentos que são como arados
ferindo a areia lisa das praias
persistindo na memória
mesmo ao invés da razão

e há pessoas que são como chamas
cuspidas do brilho das estrelas
iluminando-nos os dias
e forçando-nos a viver

ainda que, por vezes, sintamos
que pode não haver amanhã
ou que a morte seja eterna.



20070702

Abram-se janelas


Twins, de José Paulo Andrade. A descobrir neste excelente sítio.

20070701

Já abriu, mesmo

O Museu Regional de Arqueologia Dom Diogo de Sousa, em Braga, já foi inaugurado.
Finalmente, após dezassete (17) anos de prolongada espera...
Foi tamanha a espera que o site da instituição ainda não está actualizado.
Divulgue-se.

Cabotagem memorial

Um dhow navega-nos
a memória litoral
na sombra rala das casuarinas

e sob um inclemente
mas benévolo sol
que castiga
os torsos brilhantes
de esforçados marinheiros
chega-nos um cheiro
a cajú, suor e salitre
reacendendo estórias
de homens agrilhoados
noutros navios
em épocas extintas.

Air - «Playground Love» (The Virgin Suicides)

Ilha de Moçambique II

Por se tratar de matéria muito afectiva, não podia deixar de transcrever a II Parte destas sérias, eloquentes e imprescindíveis notas sobre a Ilha.
Para reflectir e aprender.

Os meus agradecimentos a José Pimentel Teixeira. Um grande conhecedor.

20070629

Ilha de Moçambique

A Ilha de Moçambique ou, simplesmente, «a Ilha» é, para mim e muitos outros, o centro de ligação telúrica.
Só isso (como se fosse pouco...).
Para o caso de haver alguém interessado, aqui ficam estas notáveis considerações sobre as actuais circunstâncias da Ilha de Moçambique.
Essas notas são verdadeiramente notáveis, em diversas dimensões: de conhecimento e erudição, de afectividade e de estilo.

20070628

Os voos da TAAG

Angola não vai gostar disto

Aguarda-se a habitual «retaliação de reciprocidade» das autoridades angolanas, seguida da costumeira atitude de cócoras do governo português...

Morrissey - «Moon River»

Smoke City - «Underwater Love»

Spa Love. Faz bem.

20070627

Amos Oz - Contra os fundamentalismos

Há pequenas notícias que nos permitem acreditar que alguém também acredita.

Amos Oz, escritor e pensador israelita mais comprometido com a causa da Paz do que com o governo do seu País, recebeu o Prémio Príncipe das Astúrias de literatura.

Há que ler e reflectir no que tem escrito.

É precisamente gente como ele que é indispensável.

Máximas

«Não encontramos a solidão, fazêmo-la.»

Marguerite Duras

20070626

U2 e L. Pavarotti - «Miss Sarajevo»

Produtividade, segundo entidade isenta

Nada que uma economia liberal e competitiva não estimule e reconheça.
© Le Monde.fr

quando a realidade supera a anedota

Há boatos letais a correr nas nossas Escolas.
Maria de Lurdes Rodrigues, essa, a ministra da educação, vai ceder o lugar a...
Margarida Moreira, a tal directora regional não sei de quê do norte...

Andam muito imaginativos os nossos professores!
Quem diria?!

Hey, Joe


Foi inaugurada, com pompa e circunstância, a Exposição da Colecção Berardo, no CCB.
Não sem a proverbial polémica dos pequenos poderes. Depois disto o A. Mega Ferreira tinha que se demitir era, mesmo, de Presidente da Fundação a que continua (?) a «presidir»...

O acesso é gratuito, até final de Dezembro, para funcionários públicos, professores e adeptos dos clubes de futebol da 1.ª Liga (com as quotas em dia).

São critérios de promoção da cultura como quaisquer outros...

20070623

Sarkozy toma a iniciativa

Rama Yade Fadela Amara




Quer ao nível europeu, quer ao nível interno, Sarkozy surpreendeu-me.
No bom sentido, devo admitir.

Ocupando decididamente o espaço daquilo a que se convencionara chamar «esquerda» (conceito cada vez mais em crise, e, se calhar, ainda bem...), depois de um ministro ligado ao PS, B. Kouchner, apresentou agoradois "reforços" de grande significado e simbolismo.

Duas - secretárias de Estado - Duas: Rama Yade e Fadela Amara.

Atenção a estas duas mulheres: a primeira, Sec. de Estado dos direitos humanos (ligada a movimentos cívicos pela dignificação das minorias); a segunda, Sec. de Estado das Cidades (presidente da Associação «Ni putes ni soumises»).

Esta estratégia de trazer as dinâmicas dos movimentos sociais para o seio do governo é inédita. Pelo menos num governo presidencial de quem se dizia de inspiração centro-direitista e de matriz autoritária.

Penso que pode ser um «laboratório» interessante, em que as tensões sócio-culturais da França se apaziguem e, quiçá, se passe agora para um processo de verdadeira integração de nacionais de minorias étnico-culturais.

Esperemos que não seja um equívoco. De um lado ou do outro...

20070622

a, e, i, o, u

Master
Mester
Mister
Mo(n)ster
Mu(n)ster

20070620

inadvertência

Foi talvez só por inadvertência

que me deixei agrilhoar

à calma profundidade

do teu sereno entoar

as palavras


cálamo

na superfície líquida


destas minhas noites inquietas

dos meus dias equívocos

da minha apaziguada revolta.




(não se poderá voltar ao que nunca foi)

20070619

Máximas

«Um juiz que não se revolta contra a injustiça torna-se um delinquente».

Ramon Sampedro, «Carta aos senhores juízes»

20070618

Era uma vez

Era uma vez
Era uma vez
Era uma vez
Era uma vez
Era uma vez
Era uma vez
Era uma vez
Era uma vez
Era uma vez
Erra uma vez

Ségo «divorce»

Acontece aos melhores.
Ségo, a esfuziante estrela política do PS de França, ex-candidata a presidente da República Francesa, acaba de anunciar a sua separação do pai dos seus quatro filhos, François Hollande, ainda líder do PS, cujo cargo ela não esconde cobiçar.

Lembre-se que a candidata despediu, no início da campanha eleitoral, um conselheiro do seu staff por ter dito, em jeito de blague, que «o pior» de Segolène era mesmo o «seu companheiro». Veio agora, ao que parece, dar-lhe razão.

Eu sei que no torvelinho da campanha, dos debates e comícios, Ségo não teve tempo para pensar na sua vida sentimental. Mas uma pergunta me ocorre: se a senhora tivesse sido eleita P.R. pediria ao seu copain para se retirar do Eliseu?
Não me pareceria de muito bom gosto, madame Ségo.

Carla Bruni - «Quelqu'un m'a dit»

Bela e sensível rapariga, ou a simplicidade que nos desarma.

20070617

Minimal

asas
raras
araras

Gaza «libertada»

Ou muito me engano ou a «libertação» da Faixa de Gaza pelo Hamas (nova jogada do Irão), ao Sul de Israel, é apenas mais um passo que vai trazer «algumas complicações», a curto ou médio prazo.
Imagine-se o cenário: o Líbano sequestrado pelo Hezbollah, a Faixa de Gaza nas mãos do Hamas, a Autoridade (?) palestiniana pulverizada, a Síria espreitando, Israel cercado, o (novo) «Holocausto» está preparado. Será diferente.
Por essa altura, os mísseis do Irão já deverão poder armar ogivas nucleares. Nada ao acaso. Nada que não se soubesse.

20070609

«Diga a frase, p. favor»

«Há elementos da Polícia que deveriam ter mais contenção na relação com a comunicação social, pois isso, de alguma forma, vai causar transtornos à investigação, não só passando alguns conhecimentos da investigação para o exterior, mas dando a impressão de que esta está a ser conduzida tipo 'discos pedidos', em que as pessoas viram para Marrocos, depois viram para Rússia, depois viram para a Inglaterra, depois viram ainda não sei bem para onde», afirmou.Barra da Costa, que falava à agência Lusa à margem do I Simpósio de Psicologia e Crime, ressalvou que «ninguém está a pôr em causa o esforço, a perseverança e os conhecimentos da Polícia Judiciária».
(do SOL on line de 9/10/2007)

O excelso Barra da Costa, "à margem" de uma iniciativa científica séria, veio entornar mais um bocadinho (só um bocadinho) de veneno sobre o trabalho da PJ no caso do desaparecimento da crinça inglesa, afirmando que a investigação anda ao sabor das «dicas» e, se calhar - o que é pior - dos ditames de Downing st. 10, com a submissa aprovação do governo e da direcção nacional da PJ.
Já toda a gente percebeu que a PJ não consegue deslindar o caso. Anda literalmente "aos papéis", o que só vem renovar uma velha questão, que é a da adequação das polícias a novos métodos de investigação criminal e aos limites que a estes devem ser consentidos no âmbito da prevenção e do combate à criminalidade organizada, violenta e de carácter transnacional.
Mas também é precio dizer que polícia nenhuma do mundo é infalível. É certo.
Coisa diferente é a subserviência revelada pelas autoridades nacionais, ao cederem às exigências das britânicas no sentido de as deixar inteferir nas próprias investigações, o que me parece ser muito diferente da desejável cooperação policial e judiciária internacional naqueles domínios.
O governo e a direcção nacional da PJ deu um sinal de grande vulnerabilidade, incapacidade e servilismo que, a pretexto de captar a simpatia dos ingleses (!), irá custar muito caro: para já, saiu ferida a dignidade e o (justificado) orgulho da autonomia da PJ.

Para acompanhar a boutade de Barra da Costa, o pedido deverá ser George Michael ou Elton John?
Diga a frase! (como impunha o locutor num célebre programa de discos pedidos ...).

NOTA: Espera-se, apesar de tudo, que a criança inglesa, seja resgatada com êxito e em segurança.

20070608

Bolas para a província.

Saldanha Sanches veio esclarecer que as acusações sobre a «captura» (termo tão caro de uma clique que nos desgoverna) dos magistrados do Ministério Público de «província» e as estruturas autárquicas, afinal, referem-se a «quebra de deontologia» e outros «pecadilhos» menores, mas que podem interferir com a imagem que se fica do seu posicionamento funcional.
Mas, entretanto (na SIC Notícias), deu um - talvez bom, talvez mesmo excelente - exemplo daquilo a que se referiu: em tempos, «um procurador(-adjunto?) de Cascais integrou a comissão de honra (?) de um candidato à Câmara».
De uma assentada, viemos a saber que o candidato à Câmara era o Dr. José Lamego, que perdeu as eleições. Um anterior presidente da Câmara de Cascais, o sr. Judas, tempos depois, viu um processo em que era envolvido ser arquivado (parece que pelo mesmo magistrado!!...). O que parece é que o Conselho Superior do Ministério Público já apreciou essa situação e decidiu nada fazer. É, portanto, «caso julgado»...
Mas, mais interessante, ficámos a saber que a «província», afinal, começa em Cascais...

P.S.: o sr. Judas, não se soube bem porquê, entretanto, caiu em desgraça (no P.S.).

20070607

Os desafios da ETA e as hesitações do governo espanhol

Após o anúncio do fim da trégua por parte da ETA, o governo espanhol decidiu que o etarra De Juana Chaos (objecto de medidas de clemência excepcionais, após uma controversa greve de fome) voltasse à prisão. Voltou a ficar preso (após ter estado internado num hospital), sob o pretexto de que já não corre perigo de vida.
Com esta opção, longe de sair reforçada a autoridade e legitimidade do Estado, o governo espanhol, talvez sem querer, dá mostras de grande tibieza, vulnerabilidade e hesitação.
Imagine-se o que terá de fazer quando for anunciada nova trégua...

20070604

Palavras incendiárias de um ex-director do «Luta popular»

«Lisboa, 04 Jun (Lusa) - O advogado José António Barreiros pediu hoje uma investigação criminal na sequência de declarações do fiscalista Saldanha Sanches, que afirmou existir uma "relação de amizade e cumplicidade" entre autarquias da província e o Ministério Público.
Na denúncia criminal contra incertos apresentada hoje à tarde ao Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP), José António Barreiros pede ao procurador adjunto que investigue os alegados crimes de denegação de justiça e prevaricação, corrupção passiva e abuso de poder subjacentes às declarações de Saldanha Sanches.
A queixa de José António Barreiros, que foi advogado das vítimas no processo Casa Pia, do ex-dirigente do Benfica Vale e Azevedo e de José Manuel Beleza, entre outros casos mediáticos, foi avançada hoje à noite pela Sic Notícias, à qual o jurista deu uma entrevista.
Em entrevista à revista Visão na passada quinta-feira, José Luís Saldanha Sanches, mandatário financeiro da candidatura de António Costa (PS) à Câmara de Lisboa, afirmou que "nas autarquias da província há casos frequentíssimos da captura do Ministério Público (MP) pela estrutura autárquica".
"Há ali uma relação de amizade e de cumplicidade, no aspecto bom e mau do termo, que põe em causa a independência do poder judicial", disse Saldanha Sanches, marido da directora do DIAP de Lisboa, Maria José Morgado, coordenadora das investigações do MP à corrupção no futebol no âmbito do processo Apito Dourado.
A Lusa tentou obter uma reacção de Saldanha Sanches, mas tal não foi possível até ao momento.
Contactada pela Lusa, fonte da candidatura de António Costa escusou-se a comentar o assunto, afirmando apenas que as declarações do mandatário financeiro apenas o vinculam a ele.
Na entrevista à Sic Notícias ao início da noite, José António Barreiros considerou que Saldanha Sanches "denunciou crimes" e que, perante esse facto, "ninguém poderia ficar indiferente", sustentando que "o sistema jurídico tem de tomar a sério" as declarações do fiscalista.
O advogado considera que as afirmações são de uma "gravidade incomensurável, vinda de quem vem", referindo que não poderia "ficar indiferente e desvalorizá-las".
"Não se contribui para combater a corrupção, proferindo frases incendiárias e que ajudam ao descrédito. Isso faz-se denunciando casos", afirmou o advogado.
José António Barreiros afirma que se assiste a "um descrédito progressivo da justiça, todo os dias sujeita a um campanha por parte dos políticos", e recorda que Saldanha Sanches falou à Visão na sua qualidade de mandatário financeiro da campanha de António Costa.
O advogado critica aquilo que diz ser "um processo de emporcalhamento sistemático do sistema judicial".
Na queixa, Barreiros sustenta que, a serem verdadeiras as afirmações de Saldanha Sanches, tal siginifica que "a liberdade de actuação do Ministério Público na província está cerceada", e que os magistrados do MP "de modo 'frequentíssimo' praticam crimes, por via da sua 'captura' pela 'estrutura autárquica'".
"O estar um magistrado capturado pela 'estrutura autárquica' só pode significar que estarão em causa situações em que tal 'estrutura' será passível, directa ou indirectamente, de responsabilização e que o Ministério Público actua em conformidade com a situação de 'capturado' por aquela estrutura", adianta.
Para José António Barreiros, "nenhum [magistrado], por mais alto que seja o cargo que desempenha, está excluído de tal imputação, nem o autor da mesma diferencia qualquer situação".
"A 'suspeita' criada pelo doutor Saldanha Sanches abrange pois um núcleo ainda indeterminado de pessoas, envolvendo as que se encontram actualmente na província ao serviço do MP e as que ali estiveram no passado", acrescenta, na queixa.
José António Barreiros, que se constituiu como assistente no processo, indicou Saldanha Sanches como testemunha "a toda a matéria da presente denúncia e a factos de que tenha conhecimento".».


Este folhetim traz à liça, mais uma vez, a tentação do protagonismo fácil de um cavalheiro que fez acusações gravíssimas, relativamente às quais só terá uma de duas saídas: ou as prova de forma concludente, e terão de extrair-se as consequências necessárias, ou não as prova, e ficaria - num país a sério - definitivamente desacreditado, podendo ser adequadamente responsabilizado pelas insinuações que fez.

Mas nada disso vai suceder.
Num país que não é realmente um país a sério (como o nosso), toda a gente vai, uma vez mais, "assobiar para o lado" e ignorar olimpicamente a questão porque nada se irá comprovar. E, mesmo que nada se prove, nada sucederá ao Dr. Saldanha Sanches, apesar de ter contribuído de forma proficiente, com mais uma potente atoarda para descredibilizar o já tão fragilizado e desacreditado sistema judiciário.

Mas esta rábula impõe uma reflexão. O cavalheiro que proferiu (na entrevista à Visão) as referidas acusações, é marido da Procuradora-geral adjunta que dirige o DIAP de Lisboa(estrutura do Ministério Público responsável pela investigação criminal e exercício da acção penal pública) e coordena a investigação de algumas sequelas do processo «Apito dourado» (M.ª José Morgado). Será que dispoe de informação cirurgicamente privilegiada para se referir ao «Ministério Público da província» (curiosa expressão provinciana de alfacinha pretensioso)?
Estaria ele a pensar no Ministério Público da Guarda, Nazaré, Felgueiras, Guimarães, Águeda, Porto, Gondomar e outros locais mais provincianos de que nem há notícia?
Seriam estas as «cumplicidades capturadas» entre as estruturas autárquicas e o Ministério Público?

Não, decerto conhecerá outros casos.
Os cidadãos exigem conhecê-los.
Saldanha Sanches deve, agora, um esclarecimento aos cidadãos «provincianos». Nem que seja num processo judicial.

Uma palavra final de grande apreço: Fez bem José António Barreiros, enquanto cidadão, ao instaurar um processo contra incertos para investigar as alegadas promiscuidades. Merece o meu incondicional apoio e aplauso.

Find Maddie: double standards, «Échelon» e o alastramento dos «inimigos».

«Londres, 03 Mai (Lusa) - Os especialistas em telecomunicações britânicos que estão no Algarve a ajudar na investigação do desaparecimento de Madeleine McCann identificaram conversas em árabe a falar de uma "menina loira", revela hoje o jornal People.
As chamadas telefónicas onde era referida a "pequena menina loira" foram todas feitas em língua árabe num telefone pré-pago espanhol, adianta a edição dominical, que pertence ao grupo dos tablóides Daily Mirror e Sunday Mirror.
Segundo o jornal, nas conversas foram ainda encontradas referências a um homem alemão, a Marrocos, Holanda e Alemanha e ainda às travessias marítimas de Tarifa, de onde sai oito vezes por dia um barco com destino a Tânger, em Marrocos.
Estas pistas terão sido encontradas usando o "sistema espião Echelon", um programa que que consegue "ouvir palavras-chave e frases usadas em conversas telefónicas, e depois analisá-las", revela.
Os especialistas britânicos terão ainda percebido referências à visita dos pais de Madeleine na semana passada a Roma, onde foram recebidos pelo Papa Bento XVI, adianta.
Uma fonte próxima da investigação citada pelo jornal reconheceu que "a informação recolhida destas chamadas de telemóveis está a ser tratada muito seriamente", mas confessou que o facto de os telemóveis pré-pagos não estarem normalmente registados torna "difícil encontrar o rasto, o que é frustrante".
Mesmo assim, disse ao People que "pode ser muitíssimo importante" e indicou que a investigação pode virar-se para o Norte de África, onde uma turista norueguesa afirma ter visto Madeleine há três semanas em Marraquexe.
Mari Olli teria visto uma menina loira vestida de pijama num posto de abastecimento de combustível na companhia de um homem a quem terá perguntado em inglês: "Já posso ver a minha mãe?".
Dois agentes policiais britânicos especialistas em telecomunicações estão desde a semana passada na Praia da Luz para tentar identificar registos de comunicações de telemóveis que possam estar relacionados com o alegado rapto de Madeleine.
No passado, registos de comunicações por telemóvel encontrados pela polícia foram cruciais para provar a responsabilidade de Ian Huntley pelo homicídio de Holly Wells e Jessica Chapman, de 10 anos, em 2002 no Reino Unido.
Embora a polícia britânica esteja a colaborar e vários agentes tenham sido enviados a Portugal para ajudar nas investigações, as autoridades britânicas têm sempre recusado comentar o caso, alegando que a responsabilidade do inquérito é da polícia portuguesa
.»

A notícia acabada de transcrever é uma autêntica «bomba jurídico-mediática» relativamente à qual, porém, ninguém dispensará mais do que um ou dois minutos de atenção (o tempo de a ler). Muito menos servirá de mote para um possível e oportuno debate sereno e sério em torno de questões como o papel dos serviços de informação e inteligence na investigação criminal, a cooperação judiciária internacional e os métodos especiais de investigação (p. ex. escutas telefónicas).
Com efeito, o rapto da criança inglesa Madeleine (há um mês) veio recordar esse pesadelo fantasmático que é o desaparecimento de crianças, e que paira(va) latente, apesar da digna, corajosa e persistente intervenção de Filomena Teixeira, mãe do Rui Pedro (o menino desparecido em 98 em Lousada).

No caso de Madeleine, os factos noticiados revelam que, afinal, mesmo sem suspeitos nem «arguidos» (figura estranha e tenebrosa, inventada por essa raça de gente pequena, preguiçosa e atrasada que dá pelo nome de "portugueses") fazem-se escutas telefónicas arbitrárias à escala mundial (de discutíveis resultados), e toda a gente aplaude, para tranquilizar o gáudio da turbamulta que, mais do que tudo, quer que se «faça alguma coisa», mesmo que se atropelem os mesmos «direitos», exactamente os «mesmos direitos» dos implicados num caso judiciário recente, em que se defendeu (sob a batuta de uma magnífica e bem orquestrada campanha político-mediática, cuja percurso ainda não terminou) a sua absoluta inviolabilidade, denegrindo-se a dignidade, a probidade e imagem pessoal e profissional dos investigadores.

Mas mais. Qual a validade - se não houver sido judicialmente autorizada, nos termos legais - probatória de tais registos de conversações telefónicas na Inglaterra? Em Portugal, tais escutas não são legalmente admissíveis, sendo crime a sua realização (art. 276.º do Código Penal português).

Portanto, a questão é mesmo essa: devem empreender-se todas as tentativas e mobilizar todos os recursos para esgotar as linhas de investigação num caso com estes contornos. Mas também nos outros que venham a suceder no futuro. Sem dúvida.
Mas estaremos dispostos a abdicar de um património normativo e civilizacional consolidado, que agora os supercivilizados e esclarecidos britânicos preferem ignorar, sob o pretexto de ineficiência das nossas autoridades?
O facto é que já deram mostras de o ter feito no caso do terrorismo. Agora, também no caso do desaparecimento de crianças. Amanhã em que situação?

O alastrar do espectro de «inimigos» (do direito) é uma sedutora tentação para aqueles que se propõem alcançar um estado de suposta segurança e eficiência investigatória, mas torna-se um flagrante retrocesso em domínios em que, bem recentemente, se rasgaram vestes pela sua inquestionabilidade.

A coerência, neste particular, é um valor como outro qualquer. Com o seu grau de relatividade, já sabemos. Não há valores puros e imutáveis.
Mas não ficará nada mal a quem andou a fazer figura de émulo dos «direitos fundamentais do arguidos» que agora se remeta a um prudente silêncio. Não é o meu caso. E, acreditem, não é por desprezar os direitos de defesa dos arguidos. Ao contrário: é por lhes pretender atribuir a sua real dimensão.

«Quem, para obter segurança, sacrifica a liberdade, acaba por perder as duas».

20070531

Cocteau Twins - «Bluebeard»

Agora, algo ligeiramente mais "ligeiro"...

Felicidade II

«A felicidade nunca é grandiosa»

A. Huxley

20070527

Causas

Podia defender muitas causas, múltiplas causas. Causas como Timor, a libertação de Ingrid Betancourt, o fim das atrocidades no Darfour, os imigrantes dos cayucos, as vítimas de violência doméstica, etc, etc. Não faltam temas nem pretextos a inspirar campanhas pela sua visibilidade.
Hoje, no entanto, só me apetece defender uma causa: cultivar o esquecimento, ou, como escrevia S. Alba, «cultivar a surdina». Também tenho momentos destes.
Será isto a inconsequência na defesa das causas?

Prémio Lucidez

«O amor é algo eminentemente fugaz».

Pedro Mexia

Não o fazia tão senil...

"Almeida Santos, que falava à saída da reunião da Comissão Nacional do PS, é contra a construção do aeroporto na Margem Sul, mas invoca razões relacionadas com a defesa nacional, nomeadamente o risco de destruição de uma das pontes sobre o Rio Tejo.
O presidente socialista explicou que um aeroporto na Margem Sul do Tejo implica passar sobre pontes e que estas podem ser destruídas por terroristas".

E eu, que afinal estava convencido que o «presidente socialista» advoga o «diálogo com os terroristas» e que não estaria particularmente preocupado com uma tal eventualidade...

Para se chegar a esta argumentação, o estado de desespero é total. Fica claro que não há mais argumentos para defender a Ota.

20070524

Felicidade

«Só somos felizes, verdadeiramente felizes, quando é para sempre, mas só as crianças habitam esse tempo no qual todas as coisas duram para sempre».

José Eduardo Agualusa, O vendedor de passados.

20070521

Às vezes, a realidade, a cores e ao vivo...

Do Sol on line:

«No Médio Oriente, trocam-se acusações quanto à origem da recente onda de violência no Líbano, com Beirute a acusar a Síria de tentar destabilizar o pequeno país, e Damasco a negar qualquer laço coma a Fatah al-Islam que, por sua vez, é acusada pelos sírios de ter laços com a Al Qaeda de Osama Bin Laden.
Vários membros deste grupo radical islâmico foram detidos nos últimos dias. Entre os militantes contam-se cidadãos da Síria, Arábia Saudita e Argélia, bem como um libanês suspeito de ter estado envolvido na preparação de um atentado na Alemanha, no ano passado, que foi evitado pelas autoridades germânicas.
Poucas centenas de quilómetros a sul do Líbano, a situação não é melhor. Na Gaza palestiniana, continuam os confrontos entre os militantes radicais do Hamas e os moderados da Fatah, apesar dos apelos dos seus líderes para o fim dos combates.

Ao mesmo tempo, militantes do Hamas continuam a disparar rockets a partir de Gaza para a cidade israelita de Sderot, do outro lado da fronteira. Esta segunda-feira, uma mulher perdeu a vida quando o seu carro foi atingido por um destes mísseis.
Israel, entretanto, continua a responder às acções do Hamas e ameaça agora eliminar altas figuras do governo palestiniano, incluindo o primeiro-ministro Ismail Haniyeh, membro do movimento radical.
Na Jordânia, no entanto, o Rei Abdullah apelou ao fim da violência no Médio Oriente. Em entrevista à BBC, o monarca afirmou que «dentro de dois anos, pouco restará de um possível Estado palestiniano» se prosseguirem as disputas internas. O rei da Jordânia aconselhou ainda Israel a ter «cabeça fria» e a não responder aos ataques do Hamas».
(SOL com agências)

Convém ter a noção que as coisas no Médio Oriente (e nomeadamente na Palestina) não acontecem por acaso e não são, exactamente, a "preto e branco"...

20070519

salazarismos de repartição

Consta do Público de hoje (19/5/2007) que a directora regional da DREN (Direcção Regional de Educação do Norte) ordenou a suspensão de um professor por este ter dito uma piada sobre a licenciatura do 1.º ministro.
Que "foi no seu local e horário de trabalho..." invocou a zelosa burocrata, considerando a ocorrência um "insulto" (não se sabendo se o visado teve conhecimento da grave infâmia).

Alguém se admira que o "fantasma" de Salazar ganhe o concurso «grandes portugueses»?

20070518

Hai ku

eros
dito
erudito

Como «destragedear» a Vida?

O desaparecimento de crianças é um pesadelo fantasmático do tempo actual, que nos remete para o domínio dos piores receios e inseguranças de um mundo em processo contínuo de avolumar crescente dos (mega)riscos.
A propósito do desparecimento da criança inglesa Madeleine, no Algarve - cujo esclarecimento se antevê como algo de complexo e, porventura, surpreendente - convoquemos o caso dessa autêntica «Mulher-Mãe-Ícone» Filomena Teixeira, cuja exemplar persistência na lembrança da ausência inexplicada e no esforço de resgatar um filho desaparecido em 4/3/1998, o Rui Pedro, é indesejavelmente, insuportavelmente inspiradora.
O extremo da dor da incerteza de não saber de um filho desaparecido é possivelmente (se é que a dor é mensurável) mais devastador do que sabê-lo morto.
Isso mesmo atesta Filomena, ao sentir e viver, também fisicamente, as consequências dessa trágica ocorrência.

Filomena, uma mulher que nos interpela a todos, de algum modo passivos cúmplices do mal que grassa nas nossas comunidades, quiçá nas nossas casas.

De uma forma singularmente bela e intensa, ela tem resistido a tudo com uma imensa dignidade, mas, sobretudo, tem resistido à indiferença, ao desânimo e ao conformismo. Merece mais do que qualquer pseudo-edificante homenagem, o reconhecimento da solidária dedicação a uma causa que teve que absolutizar, em prejuízo de outros interesses e de outras prioridades.
Continua, Filomena, a iluminar e inquietar as más (e também as boas) consciências oficiais (e as outras).
Tens que saber que te devemos muito. O teu exemplo é de uma impressionante e incomparável coragem.
És daquelas pessoas que um poeta disse, uma vez, serem as «indispensáveis».

Perante isso, como «destragedear» a vida?

20070516

Assim na Terra...

Era ainda o tempo futurível
dos avatares sublimes

e de nos adentrarmos
nessa noite insone

inscrevendo
segredos ágrafos
em cânones sânscritos

era o tempo circular
desde a idade fundacional
à fusão do átomo

e de como não haver amanhã.

20070514

Talvez haja uma hipótese...

«Les réserves de main-d'oeuvre bon marché s'épuisent en Chine. Un rapport de l'Académie chinoise des sciences sociales de Pékin tire la sonnette d'alarme : «La Chine est en train de passer d'une ère d'excédent de main-d'oeuvre à une ère de pénurie, qui sera effective d'ici à 2010», rapporte le China Daily de samedi. Estimée jusqu'à présent à 100 ou 150 millions de travailleurs, la réserve d'«ouvriers à tout faire» de moins de 40 ans ne serait plus que de 52 millions, hommes et femmes confondus».

Libération on line, de 14/05/2007.

20070513

deusa acidental

Não te soubeste anunciar

terrena deusa acidental
incendiando esta mediterrânica
ordem previsível

e o voo sossegado das águias

na surdina
dum ambíguo destino

com a tua ausência
vais adiando
as pressas e anseios
ordinários

tua presença
seria, porém,
incerto sobressalto
numa duradoura
paz imperial

20070512

Mão morta - «Cantos de maldoror»

A ver no Theatro Circo, de Braga - 11 e 12 de Maio. 19 de Maio, no C.A.Espectáculos de Portalegre.

20070506

A morte, depois de amanhã...

A morte era, antes, invariavelmente mais acidental, mais doméstica, mais testemunhada.
Isto vem a propósito de ter ouvido dizer: "Amanhã, talvez vá a um funeral!...". Dito assim, parece que a morte é coisa programável. E é, de facto.
Alguém, em estado vegetativo e sem retorno a este mundo dos viventes, aguardava que desligassem as máquinas de suporte e apoio à vida.
Só que - desagradável contrariedade - o médico que deveria proceder à operação de «switch off» da máquina não pôde comparecer à hora aprazada. Resultado: a dita intervenção teve de ser adiada para um dia depois.
E, na verdade, o funeral só se realizou no dia seguinte.

20070505

Ahmadinejad goes liberal

Mahmoud Ahmadinejad, esse incompreendido, acaba de retirar mais uma avançada proposta, por ter sentido a censura do establishment dos ayatollahs no poder.
Tinha ele fantasiado a vanguardista medida de autorizar a entrada de mulheres - grandes amadoras da modalidade, no Irão (mascarando-se de homens para se introduzir nos recintos desportivos, sujeitando-se a vexatórias penas) - nos estádios de futebol, quando sentiu recair sobre si as reprovadoras críticas dos ortodoxos.
Entretanto, as autoridades de costumes iranianos endureceram a política de padronização de vestuário "aceitável" e outros devaneios pró-ocidentais.
Anteontem foi, ao que li, severamente censurado pela atitude "indecorosa" e "quase lúbrica" de beijar a mão enluvada da sua velha professora.

Depois da libertação dos marinheiros ingleses e destas ideias, alguém teima em afirmar que o homem tem maus instintos?

20070504

Estímulo americano

Há dias, o Departamento de Estado (norte-)americano elogiou, num relatório, o trabalho da luta anti-terrorista levada a cabo pelas autoridades portuguesas. Ao que parece, terão sido instauradas umas dezenas de processos por suspeita de branqueamento de dinheiro ligado ao terrorismo.
O ministro da Justiça, A. Costa, apressou-se a classificar a referência como um «estímulo» ao trabalho das polícias portuguesas, designadamente, da P.J.
A verdade é que não há notícia de resultados quanto a tais investigações, que, devendo estar em segredo de justiça, vêm escarrapachados num relatório americano de duvidoso rigor (pelo menos quanto a Portugal).
Mas, mesmo que isso não fosse assim, o que Alípio Ribeiro não esperava era este «estímulo» do «amigo americano».
O que lhe estava guardado...

U.M.R.P.

A Resolução do Conselho de Ministros n.º 64/2007, de 4 de Maio extiguiu a Unidade de Missão para a Reforma Penal.
Não há mais nada a fazer?

C.M.L.

Confesso que o folhetim da Câmara de Lisboa não me interessa por aí além. Afinal de contas, não sou alfacinha nem vivo (mas já vivi e trabalhei) em Lisboa. Os incómodos que sofro quando vou à «capital» seriam invariavelmente os mesmos, independentemente dos governantes municipais.
No entanto, sou forçado a reconhecer que apenas Marques Mendes tomou, neste capítulo, uma posição coerente e firme.
Perante uma «(o)posição de direita» inexistente, uma «oposição de esquerda» a apostar numa estratégia de quanto pior melhor, e uma atitude de incompreensível apego ao poder pelo poder, por parte do presidente do executivo, M. Mendes tomou a (única) posição lógica, desassombrada e adequada ao momento: pedir eleições intercalares, para sair do «pântano alfacinha».
Afinal, em matéria de moralidade e ética política ele pode não ter muito a ensinar, mas outros há que têm muito a aprender.

Oitavo dia

O sopro fundador durara sete dias e sete noites
Exangue, o jovem Deus aquietou-se no súbito instante
Em que cada unidade se tornou diferente de outra
E o mar se distinguiu da terra e do céu.
Adormeceu sobre o livro de cada um dos viventes
Que acabara de talhar. Desconfortável, uma ideia de ausência
Sobressaltou-o.
O oitavo dia brilhava quando abriu o capítulo oculto e fez o
homem possuidor da ferramenta matricial: a palavra.
Naquele tempo, pré-Babel, o homem navegou numa só língua
e proclamou universal a descoberta do mistério da vida na
aventura da palavra. Poesia.

J.A.Branco, Pedra Solar.

20070502

Kyung Wha Chung -Max Bruch violin concerto 1st mov.

Parabéns, José Eduardo Agualusa

José Eduardo Agualusa ganhou XII Prémio de Ficção Estrangeira do The Independent, com «O Vendedor de Passados».

A distinção britânica da escrita sensível, humorada e elegante de J. E. Agualusa é mais do que merecida. Também fico muito honrado e satisfeito.

Ennio Morricone - «The Mission»

Precisamos desta Música.